Diria que em tempos recentes, acho que foi a primeira vez que em Portugal se juntaram cerca de 12 profissionais dos Teams da Santa Cruz e da Creature numa Demo. Desta vez, foi o Parque das Gerações o local escolhido, situado em São João do Estoril, no dia 9 de Junho de 2022 pelas 18h, onde um Skatepark bem composto os aguardavam com ansiedade.

Sendo este resumo feito por um olhar de um cão velho e já cansado tenho tendência a ver as coisas de uma forma menos romântica do que se fosse um puto de 13 anos que iria admirar o seu Pro favorito mesmo que ele não andasse de Skate numa Demo, me ignorasse ao passar por mim ou mesmo que deixasse os seus plásticos no chão depois de uma Skatada. Por vezes é uma bênção sermos ingénuos, por outras nem por isso, mas como já vivi as duas, prefiro a realidade. E a realidade, vista pelos meus olhos, logo, condicionada – porque duas pessoas olham para a mesma coisa e podem ver coisas diferentes e está tudo bem – a verdade é que na minha óptica ou expectativa, deixaram muito a desejar. Caramba, não é todos os dias que se vê o David Gravette a andar de Skate juntamente com o Jereme Knibbs e com o Blake Johnson e com o Kevin Baekel tudo à mistura, entre outros outros, como o Eric Winkowski, o Justin Sommers ou o Chris Russel. Mas havia mais. Não havia era a mesma entrega por parte de cada um.

Cerca de 400 pessoas assistiram às duas Teams de peso que, apesar de algumas baixas (Cody Lockwood com um pé torcido e um Milton Martinez que se lesionou nos Estados Unidos e já nem à Europa veio – para grande desgosto de muitos que adorariam ver o monstro destemido a skatar) – infelizmente, não deram nem 100% ao público, à excepção de Chris Russel que deu 300% e que andou por 12 Pros. Mas já falamos deste jovem daqui a umas linhas. Achei a demo paradinha, não só por responsabilidade dos Teams, mas do público tuga que, mais uma vez, não se excita com quase nada (como se tivéssemos habituados a ter cá Demos todos os dias) mas, com os pesos pesados que ali estavam, podia ter acontecido muito, muito mais. Talvez possa ter sido cedo o anunciar do “bora para o Bowl” e uma saída célere da Street com o Justin Sommers a saltar os 12 degraus do PDG a dar tudo e mais alguma coisa e o Gabriel Ribeiro a acompanhar e a fazer abrir a boca dos Américas com a sua finesse. Mas ainda assim, achei os Teams sem grande pica no geral, o que, para um observador crítico e opinativo como eu, meteu-me a pensar em como a maioria se deve estar completamente a marimbar para quem foi ali de propósito para os ver. Lá se vai a palavra Pro pelo cano abaixo. Opiniões. E esta é a minha através dos meus olhos e da minha perspectiva. E o que vi foi contraditório porque passei o dia com a maioria deles e achei o pessoal todo super simpático e acessível. Entre o dia e o fim de tarde, parecia “não bater a bota com a perdigota”.

Mas voltemos à Demo. Quando o Laurence Aragão decidiu dizer que era fixe o pessoal agarrar um lugar para ver a malta a partir o Bowl, talvez a demo de Street ainda não estivesse bem explorada, mas tarde demais, porque aí sim, começaram as obras no PDG com o homem que fez tudo sozinho, Chris Russel. Agora sim, ia começar o maior festival de abusos de Bowl que o PDG já viu na sua vida. O homem do momento foi mesmo o Skater da Creature que fez as delícias dos mais jovens e dos mais velhos. Aquilo a que assistimos ali torna-se difícil de adjectivar. A potência imparável do homem que suava em bica a dar tudo-tudo-tudo para o público que gritava com o que se estava a passar. Para alguns era tanto o que se estava a passar que nem conseguiam proferir o que quer que fosse, apenas abanavam a cabeça como quem diz “não, isto não acabou de acontecer à minha frente”. A velocidade das manobras, o à vontade a dar toques num Bowl fundo e imperfeito, com sujidade e sem manutenção ainda tornaram a demo de Chris Russel mais avassaladora.

O Eric Winkowski ainda veio dar uns toques mas depois de um 5º toque parou ao pé de mim e confidenciou ao seu Team Manager que estava com fome e saiu para comer. Achei mal. Podias dar aos putos o que eles te dão a ti, eles querem-te ver a Skatar. Tens fome e sede? Na boa, mas não te esqueças que as pessoas estão ali para te ver. E digo-o a ti e a todos os outros que deram 20% numa Demo que pedia 100% e cujos miúdos queriam ver os Baekels da vida nos rails e afins. Na minha óptica de gajo cota e romântico, porque gosto mais disto do que de respirar, custa-me ver aquela que é uma falta de consideração para com o público (e acredito que não seja de propósito mas não deixa de ser impensado). Os Pros existem porque existe público que compra as suas tábuas às suas marcas e por sua vez essas marcas existem porque somos nós, os putos que metemos esta indústria a andar. Ou seja, nós é que fazemos isto rolar. Uma reflexão: És Pro? Parabéns. Agora faz por merecer seres Pro. Achei triste isto. E não me interessa que tenham passado o dia a skatar, que não passaram. Facto. Passaram mais o dia a beber caipirinhas do que a Skatar. É dia de demo? Então guardem essa energia para darem tudo, que é aquilo que, no mínimo, o público merece. Mas pronto, ponto final, somos Pros, então já está tudo feito. Não. Prefiro que deem tudo numa Demo do que no fim “tapem o sol com a peneira” e deem as tábuas assinadas aos putos. Isto é Skate mas é trabalho também. Há que honrar esse compromisso com o Skate e com os fãs, há responsabilidades a assumir quando se é Pro. Props ao Keanu, João Ferraz e Jean Lucca Silveira que ainda deram umas voltas no Bowl e se juntaram à prozada com o público a aplaudir a participação de uns outcasts que não eram das marcas.

Fui para casa a pensar em como somos todos iludidos pelo que esperamos dos outros e pelo que idealizamos e a realidade depois bate-nos de frente e pronto, caímos em nós e chegamos à conclusão que vivemos muitas vezes algumas ilusões no Skate. O que me “irrita”, é que apesar disto, isto continua a ser a melhor cena do mundo e não me imagino a viver sem este “brinquedo” de madeira. Mas por estas e por outras, consigo perceber cada vez mais porque é que muita gente sai de cena e prefere fazer a sua cena sozinho.

Em suma, foi uma demo com um potencial enorme que deixou muito a desejar e que foi salva pelo Chris Russel. Espero sinceramente por melhor de uma próxima vez. E que os Pros se lembrem que há pessoas à sua espera para os ver a Skatar.

Com vídeo pelo Tomás Fernandes e fotos pelo João Bento, não deixou de ser um fim de tarde bem passado, mas para mim, podia ter sido uma das melhores demos de sempre. Mas não foi.

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