Madars Apse esteve mais uma vez de passagem pelo nosso país e não perdemos a oportunidade de tocar algumas palavras com este skater.

Provavelmente a Letónia é que nem Portugal, um tanto ou quanto afastada do centro da cena do skate europeu, mas não foi por causa disso que Madars já foi por duas vezes considerado o European Skater of the Year.

De objectivos muito bem traçados, este skater não desiste deles e a recompensa disso é que actualmente é dos pouco europeus a conseguir um lugar no team da ELEMENT com direito ao seu pro-model.

Madars adora Portugal, não abica de umas boas férias quando pode, e sempre que tem essa hipótese foge com a sua namorada para a ilha de Porto Santo em busca de alguns dias de praia e descanso, antes de regressar às viagens que praticamente lhe ocupam o ano inteiro, um pouco por todo o mundo.

De passagem por Lisboa, Madars veio acompanhar o restante team nacional da ELEMENT para uma demo e uma sessão de autógrafos, pelo meio de um dia muito preenchido a conversa proporcionou-se a colocámos algumas questões que achámos importantes.

Já não és nenhum estranho para os nossos seguidores, mas podes falar um pouco sobre ti?

O meu nome é Madars Apse, venho de Ventspil na Letónia, tenho 25 anos mas no próximo mês faço 26.

Ando de skate desde 2001, já são 14 anos a skatar… viajo muito, filmo vídeo parts, faço música com os meus amigos… bem, pelo menos tento.(risos)

Gosto de passar algum tempo com os meus amigos e adoro estar aqui em Portugal.

Como é que tudo aconteceu para hoje seres skater profissional?

A Letónia é um país super pequeno e distante, o que fez que fosse muito complicado de conseguir estar perto da cena do skate europeu. Tenho a sorte de ter uma família fantástica que já me ajudou muito.

Basicamente o que eu fiz com a ajuda da minha família, foi reunir o máximo de apoios e patrocínios locais, que me ajudaram a pagar o combustível para que me fosse possível correr o máximo de competições europeias.

Ao começar a fazer uma série de provas um pouco por toda a europa, comecei a fazer amigos e a conhecer skaters de todas as partes do mundo. Quando dás por ti, já estás a começar a visitar alguns desses amigos, um desses bons amigos é o Pirkka Polari da Finlândia que já fazia parte do team europeu da ELEMENT.

Entretanto fui ganhando novas ajudas, e a ELEMENT começou a pagar as minhas estadias. Eu mostrei algumas das minhas vídeo parts que tinha vindo a fazer na Letónia, eles gostaram do que viram e colocaram-me no team europeu, onde filmei uma vídeo part. Posso descrever que esse momento foi como entrar numa daquelas rodas das gaiolas dos hamsters, e desde que lá entrei a roda começou a girar cada vez mais rápido e cada vez gira mais e mais rápido!

Já vieste a Portugal uma série de vezes, e até agora o que é que mais gostas aqui?

Das melhores recordações que tenho daqui, é de um “Hill bomb” que fiz em Sintra com mais alguns amigos, isso até foi tudo filmado e podem ver nos meus episódios do “Its a Mad World”, vejam que foi um grande dia!

Mas uma das coisas que gosto mais em Portugal são as praias, quase todos os anos no verão vou até à ilha de Porto Santo.

Gosto muito dos vossos spots, e tenho cá bons amigos como o caso do Thaynan e o Ruben Rodrigues.

Conhecemos-te na Bélgica, na final do ELEMENT MIC quando o Thaynan venceu a final. Na altura cruzamo-nos já depois do campeonato, e tu nessa altura estavas de regresso a Barcelona onde estavas a estudar. Porque é que não fizeste como a maioria dos skaters que assim que começam a ganhar dinheiro com o skate, param , normalmente desistem dos estudos para se dedicarem somente ao skate?

Bem… antes do team manager da ELEMENT me dizer que eu tinha entrado para o team europeu, eu já me tinha inscrito na universidade e pago as propinas, por isso já era tarde demais para voltar atrás com uma decisão. Uma vez que tomo uma decisão, e para levar o objectivo até ao fim.

Acho que foi uma excelente decisão, e foi muito fixe, pois acabei a estudar durante algum tempo em Barcelona e também em Londres.

Gostes ou não gostes, é sempre muito bom aprender e receber novos conhecimentos. E recentemente eu decidi que deveria continuar a estudar, e estou agora a começar o meu mestrado.

Sabemos que te vais casar para o ano. Diz nos uma coisa. Como sentes que vão ser as coisas, dando esse passo importante, sendo que passas a maior parte do teu tempo fora de casa?

Madars – Não preferes perguntar isso à minha noiva, que está mesmo ao teu lado?(risos)

Lauma – Eu acho que será como já é actualmente, ele viaja muito e isso não vai mudar, não é fácil mas nós vamos conseguindo viver com isso e sabemos que vamos sempre arranjar uma forma de lidar bem com a situação.

Madars – Tenho de manter as minhas prioridades no seu lugar, e claro que quando estou fora, pelo menos vir a casa a cada 3 semanas…(risos).

O que é que achas que estarias a fazer da tua vida, caso não fosses skater profissional?

Hoje já é a s segunda vez que me perguntam isso, e eu acho que se não fosse skater, seria um monge budista, porque assim poderia meditar o dia todo e não ter de fazer mais nada do meu dia!(risos)

Falando a sério, não sei mesmo que estaria a fazer, mas o mais certo era ser um skater, de qualquer das formas…(risos)

Concordas que um skater que venha da europa, tem de se esforçar muito mais para conseguir entrar dentro de uma grande marca como o caso da ELEMENT?

Não necessariamente, caso sejas levado pela pessoa certa, acho eu… acabei por entrar no team global da ELEMENT por que todos me quiseram lá.

Mas sim por vezes é mais complicado para um skater europeu, e obriga te a trabalhar mais porque estás mais longe, já cheguei a ter de fazer 24 horas de viagem, para ir à Califórnia, estar lá cerca de 40 horas, e fazer mais 24 de regresso.

Quando és um skater do meio do nada como é o meu caso, tens de viajar mesmo muito e isso é o mais complicado na minha vida, é muito cansativo.

É na califórnia que está a indústria toda, e os media também, e acabas por ir lá muitas vezes.

Nós cá na europa também já temos a mesma coisa, mas à nossa dimensão e é claro, e isso também te faz viajar muito.

Como comparas a cena do skate europeia vs. a americana?

A cena europeia tem menos impacto. Quando tu saltas ou desces algum spot na europa nunca é um abuso tão grande, pois na América eles já estão noutro nível, cada vez a saltar de sítios mais altos ou a descer rails cada vez maiores.

Nós na europa, somos mais descontraídos, preferimos skatar spots mais “chill”, como plazas ou bons “ledges”.

O pessoal nos estados unidos, passam o tempo dentro de pátios de escolas, nós cá temos mais spots tipo o MACBA ou mesmo como a Praça da Figueira onde estivemos hoje de manhã.

O pessoal na europa encara o skate também como um meio de transporte, e passas a vida em cima dele quando vais de um spot para outro.

Mas nos estados unidos há uma coisa que aqui nós não temos, que é uma longa história de skate… são eles que tem certas lendas como Neal Blender, Tony Hawk, Muska ou de todos os outros que não me recordo agora. As grandes inovações vieram todas de lá, o skate foi lá que nasceu afinal de contas.

Gostas de competição, ou preferes te manter mais sobre o registo, de skatar e reunir o máximo de material e retorno vindo do que fazes na rua?

Não sei se sabes mas a Street League paga muito bem. Só o facto de poder lá ir e me tentar qualificar, e algo que é muito bom para a minha reputação, e caso te qualifiques, a partir dessa altura recebes 5000$ só para participar em cada uma das etapas. Pensa lá um pouco, vais lá apenas por um dia ou dois, recebes 5000$ e mesmo que não te corra lá muito bem, no próximo dia já estás de volta à rua na tua vida normal.

Um dos meus bons amigos, o Evan Smith está a fazer isso, e eu espero que ele se dê muito bem na competição, eu faria o mesmo, só que fico muito nervoso em competição.

Nas ruas não sentes essa pressão, não tens milhares de pessoas com os olhos voltados para ti. Na rua és tu, o spot, e demores o tempo que demorares, as únicas pessoas que aborreces para além de ti, é o “filmer” e o fotografo, mas eles estão lá com o mesmo feeling que tu.

Quais são para ti as melhores coisas que o skate tem dado?

Liberdade! Liberdade para não teres de ir trabalhar, muito prazer por skatar, e mexo-me todos os dias.

É muito bom quando através do que eu ganho com o skate, posso a seguir ajudar a minha família.

Afecta também de um modo positivo os meus amigos, pois por vezes posso também partilhar com eles algum do material que recebo.

Mas o melhor de tudo é que me garante muita diversão, e isso dá-te muitas mais grandes sensações.

E coisas menos positivas? Alguma?

Lesões claro! Mas ao mesmo tempo as lesões também te ensinam algo.

Sempre que me aleijo, aprendo que não devo repetir os mesmo erros novamente . Que não devo ir em tours quando os meus joelhos estão muito fracos.

Por vezes destróis a propriedade dos outros e acabas por discutir com pessoas que não conheces de lado nenhum.

Mas as lesões é mesmo o pior, só que vais aprendendo com isso… aprendes a cuidar melhor do teu corpo, a comer melhor para acelerar a tua recuperação,.

Quando me lesionei muito num dos joelhos, aprendi um monte de coisas novas, como tratamentos de acupunctura, massagens e crioterapia, que é recuperar mais depressa através da aplicação de temperaturas muito baixas… quando estás mal, tentas de tudo para recuperar o mais rapidamente possível.

Tens algum grande plano para o futuro?

Bem… um deles já falámos, vou me casar para o ano. Além disso ando a filmar uma part para uma grande produção da ELEMENT que irá sair no ano que vem.

Estou também filmar para um anuncio da DC que vai sair em Novembro ou Dezembro deste ano, e o meu sonho é claro vir a ter o meu pro-model. Mas até teres uns ténis com o teu nome, isso pode demorar algum tempo.

Quero também poder dar continuidade ao meu projecto “Its a Mad World”.

Quem são para ti os skaters portugueses que se destacam mais?

Bem hoje adorei ver a andar o Ruben Gamito e o Tiago Lopes, mas sou um grande fã do Ruben Rodrigues e claro do Thaynan Costa.

Tenho grandes memórias do Ricardo Fonseca, do Hélder Lima e adorei conhecer o legend Luís Paulo.

Para terminar, queres dizer algo aos skaters portugueses?

Façam spots D.I.Y. , vocês aqui tem boas condições meteorológicas o ano inteiro. Quando alguns dos vossos spots já não estão bons, cuidem deles e acima de tudo divirtam-se a andar de skate, tentem não se aleijar muito.

Façam vídeos, tirem fotos, promovam o skate, pois quanto mais promoverem o skate mais o movimento pode crescer, e mais condições podem haver para todos.

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